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ABERRAÇÕES
ÓPTICAS
Neste artigo, abordamos as aberrações ópticas oculares
e um pouco de como elas afetam a visão humana. Mas antes, é
importante relembrar algumas características referentes à propagação
da luz e frentes de onda.
O que é uma
frente de onda? – Em um meio
óptico homogêneo, a luz se propaga uniformemente a partir de um
ponto luminoso, e na mesma velocidade em todas as direções. Uma boa
forma para visualizarmos isto é lembrar as ondas que se formam na
superfície da água após lançarmos uma pedra nela. A posição da luz
em cada determinado momento é uma esfera formada pela união de todos
os pontos em uma mesma fase, tendo como centro a sua própria fonte
(o ponto luminoso, ou a pedra no exemplo citado). A estas
superfícies esféricas imaginárias chama-se frente de luz ou frente
de onda, e todos os seus feixes de luz possuem a mesma fase e o
mesmo comprimento de onda.
A tecnologia de frente de onda é
utilizada em Oftalmologia para o diagnóstico de problemas difíceis
de detectar através dos exames comuns. Para isso, utiliza aparelhos
que projetam radiações no interior do olho, que ao retornar são
lidas por um sensor, permitindo obter um “mapa” do olho capaz de
mostrar os defeitos de refração comuns (miopia, hipermetropia e
astigmatismo), bem como outros defeitos na córnea, as chamadas
“aberrações de alta ordem”. É uma tecnologia utilizada
principalmente para personalizar cirurgias refrativas.
Aberrações ópticas oculares
– Aberrações ópticas podem ser definidas como
características de um sistema que impedem que a imagem de um ponto
seja a reprodução exata desse ponto, o que limita a visualização de
detalhes mais precisos para o olho humano.
Podemos dividir as
aberrações em vários tipos, mas os mais importantes – devido a seus
maiores efeitos e também à maior facilidade de compreensão e menor
complexidade – são as ópticas, que podemos subdividir em quatro:
dispersão, difração, aberração cromática e aberração monocromática
(ou geométrica).
Dentre estas quatro, podemos apontar como mais
relevantes as aberrações cromáticas e as monocromáticas (ou
geométricas), pois elas aparecem mesmo quando se usa uma luz com
comprimento de onda único (chamada de luz monocromática).
A
aberração cromática é a separação da luz branca nas cores que a
compõem e está ligada ao número Abbe do material, ao índice de
refração dele e suas características quanto à transmissão
luminosa.
Para entendermos melhor as aberrações monocromáticas,
vamos imaginar um grupo de raios de luz paralelos incidindo numa
lente ideal, em que todos os pontos na mesma fase estejam
perpendiculares à propagação dos raios, formando um plano perfeito
de frentes de onda (figura 1). Essa lente ideal transformará as
frentes de ondas planas em frentes esféricas. Logo, estas serão
esferas concêntricas (como as ondas na água, no exemplo citado
anteriormente), cujo centro estará no ponto focal da lente, formando
uma imagem perfeita, como vemos na figura abaixo, em que todos os
raios de luz convergem para o mesmo ponto.
FIGURA
1

As
lentes reais (não ideais) modificam essas frentes de onda ideais de
maneira que os raios centrais têm sua trajetória alterada de forma
diferente em comparação aos periféricos, levando à formação de
diversos pontos focais distintos, o que gera uma imagem imperfeita e
com distorções, como pode ser visualizado na figura 2. Este fenômeno
denomina-se aberração geométrica ou monocromática, e acontece devido
ao próprio formato das lentes, posição dos objetos e como a imagem
se forma.
FIGURA 2

Então,
podemos afirmar que os raios luminosos que atravessam a lente têm
sua trajetória alterada de forma diferente do centro para a
periferia desta, devido à alteração no raio de curvatura da sua
superfície, impedindo que estes raios luminosos formem um ponto
focal único.
Aberrações de Baixa e Alta Ordem – Quando a
superfície da frente de onda é alterada de forma regular, o sistema
óptico pode ser corrigido com o uso de lentes convergentes,
divergentes, cilíndricas ou uma combinação destas – portanto, lentes
convencionais para correção de hipermetropia, miopia e
astigmatismo.
Estas aberrações são chamadas de aberrações de
baixa ordem, e são conhecidas em Oftalmologia como os componentes
esférico (miopia e hipermetropia) e cilíndrico (astigmatismos
regulares), corrigíveis através de óculos.
Quando a superfície da
frente de onda é alterada de forma irregular, provoca aberrações de
alta ordem, conhecidas como astigmatismos irregulares, que não podem
ser corrigidas com lentes esferocilíndricas.
Na figura 3 vemos um
diagrama que representa a correção das aberrações oculares por meio
de óculos. À frente da onda real (linha preta) é colocada uma
superfície geometricamente definida (linha tracejada) (a). Após a
correção do sistema óptico ocular com óculos, a nova frente de onda
pode ser vista como uma superfície plana (b), mas a frente de onda
real mantém alterações que não podem ser corrigidas por lentes
esferocilíndricas.
FIGURA 3

Resumindo, podemos então dividir as aberrações oculares
conforme a tabela abaixo:
Aberrações
de baixa ordem |
Aberrações
de alta ordem |
Miopia
Hipermetropia
Astigmatismos regulares |
Astigmatismos
irregulares |
Podemos
incluir vários tipos de aberrações visuais nas monocromáticas, entre
elas o Coma, que pode ser definido como uma aberração (ou distorção
visual) que ocorre quando os raios de luz se encontram fora do eixo
óptico, provocando uma imagem semelhante a um cometa (daí o nome
atribuído a esta aberração).
Na figura 4, podemos visualizar
como os raios luminosos formam diferentes pontos focais, devido à
forma como são desviados (refratados) ao atravessar pontos distintos
da lente. Este tipo de distorção é inerente a certos desenhos
ópticos ou imperfeições na superfície de refração.
FIGURA
4

Na
imagem da figura 5 podemos ver aberrações geométricas esféricas,
provocadas por diferentes pontos focais de um mesmo ponto ou imagem,
e que são vistas desta forma pelo olho humano.
A natureza permite
ao olho humano compensar parcialmente as aberrações monocromáticas,
dando à córnea uma forma menos curva na periferia que no centro. A
forma asférica da córnea, em conjunto com a asfericidade do próprio
cristalino, contribuem para atenuar estas aberrações ópticas
geométricas.
As aberrações ópticas tornam-se mais complexas com o
aumento de ordem e dependem do diâmetro da pupila. Como existe forte
relação entre as aberrações ópticas e o tamanho da pupila, as
medidas de aberrações têm sentido somente nas pupilas maiores que 6
mm – uma vez que nas pupilas menores os raios centrais são pouco
afetados.
Então, em condições normais de iluminação, durante o
dia ou em ambientes bem iluminados, as aberrações de alta ordem,
como o Coma, têm seus efeitos minimizados, ou até mesmo suprimidos,
devido à condição natural do olho, que ao adaptar-se a esta
luminosidade, faz com que a pupila apresente aberturas menores que 6
mm.
FIGURA 5

É
impossível corrigir aberrações alta ordem com lentes de óculos, pois
seria necessária a correspondência ponto a ponto da área pupilar com
as lentes desses óculos. E como existe movimento ocular, essa
correspondência seria perdida. A única forma de fazer isto seria
termos lentes com exatamente a mesma abertura pupilar, ou seja,
cerca de 6 mm de diâmetro – e neste caso, o campo visual estaria
comprometido ao ponto de ser totalmente ineficaz.
Algumas lentes
de contato atuam corrigindo ligeiramente as aberrações de alta
ordem, uma vez que sua superfície acompanha o relevo da córnea.
Voltaremos a este assunto em um próximo artigo, detalhando-o
mais.
Um abraço e até a próxima!
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