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LEI DA
OFERTA E DA PROCURA: em duas capitais brasileiras (São Paulo,
na foto à esquerda, e Rio de Janeiro, à direita), um dos
cruéis retratos da venda indiscriminada de óculos, que
caracteriza o maior problema do mercado óptico, segundo
pesquisa do Datafolha feita na Abióptica
2006 |
O FANTASMA DA
CONCORRÊNCIA DESLEAL
ENQUANTO APREENSÕES DE PRODUTOS ÓPTICOS CONTRABANDEADOS BATEM
RECORDES, PESQUISA CONFIRMA: VENDA INDISCRIMINADA DE ÓCULOS DE BAIXA
QUALIDADE E PREÇO É O MAIOR PESADELO DO MERCADO
Nem a
falta de profissionalização do varejo, nem a falta de informação do
consumidor final, tampouco a propalada “desunião” da classe óptica
ou mesmo a crise econômica. O grande problema que tira o sono do
mercado óptico brasileiro neste início de Terceiro Milênio é, de
longe, a concorrência desleal.
Pelo menos é o que aponta, pelo
segundo ano consecutivo, uma pesquisa de opinião feita pelo
Instituto Datafolha, sob encomenda da Abiótica (Associação
Brasileira de Produtos e Equipamentos Ópticos).
Realizada durante
os quatro dias de feira Abióptica 2006, a pesquisa mapeou os índices
de satisfação dos visitantes com o evento, mas também aproveitou
para apurar os principais problemas enfrentados pelo mercado
óptico.
Entre os entrevistados pelo Datafolha entre 12 e 15 de
julho, 38% apontaram como maior vilão do comércio óptico hoje em dia
o item “concorrência desleal” oferecida por camelôs, com seus
produtos falsificados, contrabandeados e sem garantia, ou a venda em
boutiques, farmácias e lojas de departamentos.
Dentro desse item
“concorrência desleal”, foram consideradas também as reclamações dos
entrevistados contra guerra de e preços entre os lojistas (motivada
também pelos produtos de baixa qualidade), além de grandes empresas
e médicos que abrem ou compram “suas próprias ópticas”.
Em
segundo lugar no ranking de problemas do ramo óptico, surgiu um item
que também está inserido no contexto da concorrência desleal: para
20%, o mercado é prejudicado pelos “produtos de baixa qualidade e
baixo preço”. Ou seja, somando-se os percentuais dos dois primeiros
itens citados na pesquisa, é possível dizer que quase 60% do mercado
óptico culpa o comércio informal e a venda indiscriminada de
produtos de baixa qualidade, e de baixo custo, pelos problemas
enfrentados pelas empresas ópticas de Norte a Sul do Brasil.
Na
seqüência de problemas elencados pelo mercado, surgiram os itens
“massificação do comércio óptico” (com abertura indiscriminada de
ópticas que não visam qualidade, e sem conhecimento técnico), com 6%
das citações; “impostos altos” (6%); “crise financeira do
país/instabilidade nas vendas” (4%); “falta de cursos e
treinamentos” (3%) e “falta de fiscalização” e “desunião dos
profissionais da classe”, com 3% das respostas.
VAREJO É SERIAMENTE AFETADO – Segundo o
Datafolha, os resultados que apontam concorrência desleal e produtos
de baixa qualidade como os principais problemas do mercado são
ratificados por outro dado apurado na pesquisa: a maioria dos
entrevistados “sente-se afetada” (responderam “muito afetado” ou
“afetado”) pelos “produtos de baixa qualidade” (70% das respostas) e
pelos “camelôs” (64% das citações na pesquisa).
Na comparação com
os resultados de pesquisa idêntica feita na feira do ano passado, o
Datafolha aponta que houve crescimento de aproximadamente 10 pontos
percentuais no índice de profissionais que se sentem “muito
afetados” pelos produtos de baixa qualidade e pelos
camelôs.
Ainda segundo a pesquisa, “produtos de baixa qualidade
incomodam mais os visitantes da região Sul, enquanto os camelôs
afetam mais os das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste”. Por
outro lado, ambos são motivos de queixa mais presente entre os mais
jovens do que os mais velhos.
Apesar dos problemas, a maioria
pertencente ao ramo e com cargos de decisão pretende ampliar seus
negócios (78%) nos próximos 12 meses: 42% responderam que vão
ampliar “com certeza” e 36% “provavelmente”.
Para realizar a
pesquisa, o Datafolha entrevistou 212 profissionais do setor nos
quatro dias de feira (considerado o local ideal para o de
levantamento, já que profissionais de todas as regiões do Brasil
participam do evento em São Paulo).
O perfil das empresas nas
quais os visitantes ligados ao setor óptico trabalham revela algumas
características recorrentes. Na maior parte, são instituições que
possuem uma unidade; até 10 funcionários; faturamento bruto anual
até R$ 500.000,00; bom nível de informatização.
A distribuição
por sexo é equilibrada: 57% são homens e 43% mulheres.
A maioria
possui entre 18 e 44 anos e é proveniente da Região Sudeste (77%),
principalmente do Estado de São Paulo (67%).
VOLUME DE APREENSÕES
BATE RECORDES – Em meio a tantas avaliações negativas sobre o ramo
óptico brasileiro, contudo, boas notícias surgem no campo da
repressão ao contrabando e pirataria de óculos.
Nos últimos
meses, a fiscalização da Receita Federal nas alfândegas dos
principais portos brasileiros, e na região de Foz do Iguaçu, na
fronteira com o Paraguai, realizaram apreensões recordes, que
somaram quase 2 milhões de unidades de óculos de sol, de
receituário, além de lentes para óculos.
Somente nas últimas
cinco grandes operações de fiscalização, efetuadas entre os meses de
junho e setembro, a Receita apreendeu mais de 1,6 milhão de óculos
(armações e solares) e quase 300 mil pares de lentes contrabandeados
(veja no quadro abaixo os casos mais recentes).
Juntas, as
mercadorias retidas foram avaliadas pela Polícia Federal em mais de
R$ 4,5 milhões (que certamente movimentariam centenas de milhões na
economia informal).
Na maior das apreensões, 550 mil óculos de
sol e armações de receituário foram retidos no Porto de Santos (SP)
no dia 1º de setembro. Embarcadas em um navio na China, a carga foi
falsamente declarada como sendo de “lâmpadas miniaturas” para
árvores de Natal – e não óculos. Foi a maior apreensão de óculos já
efetuada pela Receita no porto de Santos, onde 1,5 milhão de peças
já foram retidas desde o início do ano.
A maior parte dessas
apreensões em Santos revela, de certa forma, um dos “modus operandi”
do contrabando.
As cargas são embarcadas em navios comerciais,
principalmente a partir do porto de Ningbo, o segundo maior da
China, com destino a diversos portos brasileiros. No lugar dos
óculos, os importadores declaram outros tipos de produtos, como
bolsas de viagem, guarda-chuva e até produtos químicos, na tentativa
de burlar e confundir a fiscalização, pois em boa parte das
alfândegas brasileiras, os fiscais da Receita atuam com “análise de
risco” sobre as mercadorias importadas, baseado nos históricos dos
importadores, procedência e tipo das mercadorias
declaradas.
QUASE 2 MILHÕES DE ÓCULOS APREENDIDOS EM
2006 |
Somente entre os meses de junho e
setembro deste ano, a Receita Federal já apreendeu
1.666.300 peças de óculos de sol e armações de
receituário em operações nos principais portos
brasileiros. As cargas apreendidas somam cerca de R$ 4,5
milhões em mercadorias ilegais. Confira as últimas cinco
grandes apreensões de óculos registradas no Brasil,
segundo a Receita Federal e o Ministério da
Justiça:

Mercadorias apreendidas no Porto de
Santos (SP), onde mais de
1,5 milhão de peças de
óculos já foram retidas só este ano:
a maior parte do
contrabando chega ao país em navios vindos da China
1 DE
SETEMBRO
LOCAL: Porto de
Santos |
Apreendidos mais de 550.000 óculos, para
receituário e proteção solar, declarados
falsamente como “lâmpadas em miniatura” para
árvores de natal. A carga, avaliada em R$ 1,6
milhão, estava acondicionada em 570 caixas. Os
óculos foram embarcados no porto de Ningbo
(China), com destino ao porto de
Santos. |
25 DE
AGOSTO
LOCAL: Porto do Rio
de Janeiro |
Apreendidos 151.308 óculos de sol e de
receituário, além de 288 mil lentes para óculos,
avaliados em R$ 400 mil. O importador foi obrigado
a apresentar laudo que comprovasse que as
mercadorias não apresentariam risco à saúde
pública, mas preferiu abandonar as
mercadorias. |
8 DE AGOSTO
LOCAL: Porto de
Santos |
320 mil armações de receituário e óculos
solares apreendidos em 774 caixas. A carga,
avaliada em R$ 900 mil, foi declarada falsamente
como sendo de “guarda-chuvas”. Tinha sido
embarcada no porto de Ningbo (China), com destino
ao porto de Sepetiba (RJ), mas acabou parando em
Santos. |
19 DE JUNHO
LOCAL: Porto de
Santos |
Na segunda maior apreensão do ano, a
Receita reteve mais de 330 mil óculos de sol e 140
mil óculos para correção visual, armazenados em
536 caixas e avaliados em mais de
R$ 1,4
milhão. A carga, que havia sido declarada como
“bolsas de viagem e produtos químicos”, foi
embarcada no porto de Ningbo
(China). |
JUNHO DE 2006
LOCAL: Porto
de Itaguaí (RJ) |
Entre os R$ 10 milhões em mercadorias
contrabandeadas apreendidas pela Receita Federal
no Porto de Itaguaí, no Rio de Janeiro, estavam 15
mil óculos da marca Oakley e outros
160 mil
óculos Chanel, todos fabricados sem
autorização. |
TOTAL: 1.666.300 ÓCULOS E 288 MIL PARES DE LENTES
APREENDIDOS EM 2006 – TOTALIZANDO
R$ 4,5 MILHÕES EM
MERCADORIAS ILEGAIS
Fonte: Receita Federal e Ministério da
Justiça |
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REPRESSÃO – Outra boa notícia – essa para a
economia brasileira como um todo – é que o governo parece acordar
para o problema. Desde que as ações de combate aos produtos ilegais
passaram a ser realizadas em operações sincronizadas entre a Polícia
Federal, Receita Federal, e a Polícia Rodoviária, os números são
recordes, segundo o Ministério da Justiça.
De janeiro a julho de
2006 foram apreendidos o equivalente a R$ 377,2 milhões em
mercadorias ilegais em 548 operações de repressão à pirataria e
contrabando em todo o país, principalmente em Foz do Iguaçu,
considerada a principal porta de entrada destes produtos no Brasil.
O volume de mercadorias apreendidas representa um aumento de 32,3%
em relação ao mesmo período de 2005.
Ao que tudo indica, os
números positivos são frutos de uma nova tentativa do governo de
encarar o problema: desde novembro de 2004, o Brasil tem um inédito
“Conselho Nacional de Combate à Pirataria e aos Delitos contra a
Propriedade Intelectual” (CNCP). Esse órgão, que reúne
representantes do governo e da iniciativa privada (setores de
software, audiovisual, música, industrial, jurídico e reprográfico),
elaborou um “Plano Nacional de Combate à Pirataria”, composto de 99
ações, dividas em três segmentos: ações de caráter educativo,
repressivo e econômico.
Segundo o Ministério da Justiça, houve
uma mudança de foco na visão do governo, e o problema da pirataria
deixou de ser visto como mero fenômeno social, desencadeado também
pela crise econômica, para ser encarado como atividade do crime
organizado.
Além de alimentar a crescente economia informal, que
já responde por mais de 40% do PIB (Produto Interno Bruto) do
Brasil, segundo o Instituto Brasileiro de Ética Concorrencial
(Etcos), a pirataria é perversa também do ponto de vista econômico.
Por ano, o Brasil deixa de arrecadar R$ 27,8 bilhões por causa dos
produtos ilegais, segundo dados do Sindicato Nacional dos Auditores
Fiscais (Unafisco). Essa quantia representa, por exemplo, todo o
investimento do governo dos programas do Fome Zero entre 2003 e
2005, incluindo o programa Bolsa Família e a merenda escolar.
O IMPACTO DA CONCORRÊNCIA
DESLEAL |
A elevada tributação e os freqüentes aumentos
de impostos nos Estados brasileiros criaram uma
distorção concorrencial nos últimos 10 anos, dando
origem ao crescente comércio ilegal de produtos. O
comércio ilegal movimenta dezenas de bilhões de reais
por ano e tem na sonegação fiscal, no contrabando e na
falsificação os seus fundamentos econômicos.
Como conseqüências da concorrência
desleal, temos:
• Redução do número de
empregos formais;
• Baixa utilização do parque
industrial nacional, com alto percentual de capacidade
ociosa;
• Queda na arrecadação dos governos;
•
Evasão fiscal, com injeção de recursos no financiamento
do crime organizado, criando estruturas empresariais com
logística sofisticada.
O que a sociedade ganha quando há ética
no mercado:
• O
número de empregos aumenta;
• A arrecadação de
impostos é maior;
• Os investimento públicos
crescem;
• A economia como um todo é estimulada;
•
O crime organizado é desestimulado.
FONTE: Instituto Brasileiro de Ética
Concorrencial ETCO –
www.etco.org.br |
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Revista Convergência no.29
Julho/Agosto
2006
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