Novo transplante reduz desperdício de córnea.



Compartilhamento de uma só córnea entre dois pacientes pode aumentar número de cirurgias.

A fila de espera por córnea no país soma cerca de 24 mil pessoas e segundo dados da Central de Transplantes é a maior apesar da captação poder ser realizada com o coração parado, enquanto que rim, coração, fígado e pâncreas só podem ser retirados mediante morte encefálica, ou seja, o coração precisa estar batendo. Ao contrário do que se possa imaginar não é a falta de doadores que faz a fila crescer. De acordo com Leôncio Queiroz Neto (foto acima), oftalmologista do Instituto Penido Burnier e diretor médico do Banco de Olhos de Campinas (BOC), a maioria dos hospitais não mantém pessoal qualificado para fazer a abordagem e a captação.

Resultado – A córnea lidera o desperdício que soma 29% de perda, mesmo depois da autorização dos familiares. Não por acaso, ressalta, o BOC mantém parceria com a SETEC Campinas, oferecendo treinamento aos agentes funerários para abordar as famílias, A iniciativa, comenta, permitiu um aumento de 30% das captações nos últimos três meses em relação ao mesmo período do ano passado. Para Queiroz Neto a disseminação de um novo procedimento cirúrgico, o transplante lamelar, também pode reduzir a fila de espera.

Isso porque a técnica permite que só a parte afetada seja enxertada, ao contrário da cirurgia tradicional que substitui todas as camadas da córnea - epitélio (camada externa), estroma (camada central) e endotélio (camada interna). Só para se ter uma idéia, no ceratocone, doença que responde por 70% dos transplantes, só o epitélio e atingido. Já a ceratite bolhosa, outra doença que leva muitas pessoas à cirurgia, danifica o endotélio. Assim, explica,, pelo implante lamelar é possível devolver a visão simultaneamente a um portador de ceratocone e outro de ceratite bolhosa, utilizando uma única córnea.

Para ele a desvantagem é a qualidade menor de visão provocada pela interface dos tecidos. Entre as condições que podem exigir o transplante, destaca as infecções, inflamações, traumas, doenças congênitas, algumas doenças sistêmicas, cirurgias oculares, ulceras e edemas.A cirurgia, ressalta, reduz o risco de rejeição que é de cerca de 10%. Em portadores de ceratocone, elimina 100% do risco de rejeição, pois mesmo nos casos em que o transplante deva se profundo não utiliza o maior alvo de reações imunológicas que é a camada endotelial.

Por outro lado, nos implantes endoteliais evita o surgimento de altos graus de astigmatismo comum na troca da parte anterior da córnea, Outras vantagens são: recuperação mais rápida, preservação da resistência do globo ocular e, no pós-operatório, redução da necessidade do uso de corticosteróide que predispõe à catarata quando aplicado por um longo período. Além disso, observa, permite realizar implantes epiteliais por um tempo de preservação maior que 10 dias, período máximo na cirurgia tradicional.

O mais importante, porém, ressalta, é o maior aproveitamento das doações. Isso porque, 25% dos familiares abordados não permitem a captação por terem a falsa crença de que a doação desfigura ou pode atrasar o enterro.Queiroz Neto afirma que a captação pode ser feita em qualquer lugar, é um procedimento rápido e não altera a aparência do doador. A técnica cirúrgica evoluiu muito, mas sem a colaboração da população vamos continuar assistindo a fila de espera crescer.

          Fonte: Leôncio Queiroz Neto